segunda-feira, 28 de janeiro de 2008

O enorme crocodilo

Ninguém percebeu, mas todos os relógios da rua pararam. Podia ser meio dia, ou seis da tarde; não foi assim, de uma hora para outra. Cada um foi parando no seu tempo, o que deixou em suspensão qualquer tentativa externa de compreender que horas eram. Não havia mais tic-tacs, o termômetro do canteiro central inundava o espaço com a constatação infinda dos sacros 25 graus.
Fantástico seria, obviamente, se os moradores da rua, cujo nome ninguém mais diz, tivessem se dado conta. Dar-se conta talvez nem seja o termo certo, era mais uma sensação de reconhecimento da total incerteza do tempo. Para os moradores daquela rua, era como se os relógios nunca houvessem sido inventados, percebidos. A própria palavra "hora" desaparecera de todos os dicionários, e a palavra tempo, assim como todas a ela relacionadas, tinham agora definições tão abstratas que nem mesmo o mais letrado dos moradores poderia compreender (não que tivesse qualquer intenção de fazê-lo, pois de uma hora para outra tudo se tornara tão concreto). O sol que não se ia, variava entre a hora das não-sombras e a hora dos mortos, dependendo de quem estivesse olhando. Não havia consenso. Pudera, niguém o procurava. Tudo parecia ser como sempre houvera sido.
Não demorou, entretanto, para que visitantes se apercebessem da anormalidade do fato. Chegou a imprensa, vieram cientistas, filósofos, matemáticos, esotéricos de toda parte. Suas rugas não cessavam. Trouxeram crianças, que se tornaram adultos. Houve lá mesmo um parto, normal, e nada. Cada dia que se passava contado pelos relógios de fora fazia com que os moradores todos esquecessem da criança, da grávida, e cada dia esses se tornavam para eles novos seres, banhados de insanidade, não falando nada com nada e fazendo perguntas sobre coisas que não existiam.
Parados estavam somente os que lá se encontravam no estranho episódio da eternidade do mundo. Verdade que lá não mais se chega. Ninguém teve fome, ninguém precisou entender inglês ou estudar química. Ninguém quis aprender a dirigir.
Até onde se soube, ninguém morreu.

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