quinta-feira, 31 de janeiro de 2008

Sobre a cama tantas peças de roupa e uma mochila, velha, não tanto, remendada. na porta se amontoavam todos os fantasmas com cara de um só sorriso. Cansada. Se sentia. Como da primeira vez? Nada. Por volta da sexta já havia perdido completamente a graça. Eles não concordavam. Divertiam-se, sofriam-se, opunham-se, negavam-se. Cada qual a seu modo. Todos do mesmo jeito. Ali, em pé na porta. Ela podia ver, ouvir, cheirar sem nem precisar virar de frente. Se bem que desde criança soubera sentir muito mais com as costas. Desde aquele dia quando as luzes da escada se apagaram e ela teve medo de verdade. Depois daí, sempre de costas, enquanto passava a chave na porta de ferro para sair, sabia com as costas que ele estava lá, sentado nos degraus, de chapéu na cabeça. Tentou até ficar tanto tempo sem pôr o corpo ao sol, mas quando voltou, ele ainda estava lá. Não está mais. Já há alguns anos. Pensando assim, fazendo rolinhos de meia, poderia até duvidar que ele tinha existido, se não houvesse tido tanta certeza. Já conta até dez para saber quantas vezes moveu as coisas.
Tem um lugar, esse, no qual está agora, que é para onde mais voltou. nem aí existe um seu. Está sempre flutuando - o que, convenhamos, é bem fácil quando não se tem pés. Mas, de qualquer maneira, a sensação de dentro é meio chata. Claro, com o tempo o senso de direção vai melhorando, e a capacidade de fazer um melhor amigo a cada quinze minutos também. De onde surgiram tantas blusas brancas? Ainda bem que água sanitária rende. E fede. Assim fica a sua cara, rastro de limpeza com fétido odor de passado podre. Nem é tão podre assim. Só um pouco. Pode ser mais. Ela não lembra. Caminhando de chinelo e moleton por ruas que já foram suas há tempo suficiente para terem deixado de ser, percebe o que sempre esteve. Desconhecendo. Estranhando. Anjo da guarda escrito com chaves no cimento deixa de ser previsão divina para se tornar propaganda de qualquer coisa. A santa já perdeu a coroa. Não. A santa nunca teve coroa. Tem o prédio quadrado, no qual morava o homem loiro que olhou pros peitos da sua amiga quando entrou na van, indo pro show. O sinal está quebrado, piscam todas as luzes vermelhas possíveis, a cor reverbera no fundo da cabeça gritando. Tudo tão pitoresco. Bem patéticas as pequenas flores amarelas que um dia foram rainhas que iam ao banheiro. Ali dava aula o professor de educação fisíca que não tinha um dedo, onde o menino fez cesta de costas e do meio da quadra. Subindo a escada tem um gramado bom, mas não vai lá, não vai visitar seu primeiro beijo, de olhos abertos. Virando à direita tem aquela caixa escura onde a expectativa era sempre a mesma, a luz era sempre a mesma, só a roupa tinha que ser diferente. talvez por isso hoje dobre tantas blusas brancas. A academia de ballet virou prédio. Será que eles sabem que o coreógrafo da loira dançava lá? Será que alguém lembra de como doía enfiar todos aqueles grampos na cabeça só para bater com o coque na porta do carro no primeiro dia de aula? A outra de dança virou curso de inglês. Na frente do colégio. A árvore está lá ainda, e o apartamento do menino que fedia tanto na classe de alfabetização também. Mas o colégio está bem diferente. Tem, até, um outro andar. O corredor tem ainda as mesmas telhas. Será que a janela da secretaria continua um grande buraco, ou virou uma janelinha de acrílico com um furo no meio? Devido à obra estamos atendendo na filial. Filial? Não. Não quero filhos, obrigada. Não quero ter que procurar qualquer outro colégio que não seja o meu.

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