Todo dia lhe era uma pena arrancada. Não doía, quase sempre, e como sabia disso, e de quando era, já nem dava por falta da que havia sido sua. Na caixa ao lado se estendia o corpo da criança. O vidro estava imundo e o sol entrava menos, por isso. A criança quase nunca chorava. Nunca pedia comida. Nunca sentia cólica. Tampouco serviria para o que quer que fosse.
Havia algo de matemático no ar. Pairavam números, sinais, letras minúsculas sem qualquer significado. A grafia não era bem sua, mas poderia ter sido, se ela houvesse sido um pouco mais caprichosa nas aulas certas. Bem que ela gostaria de ter uma letra assim bem redondinha, estaria mesmo contente se estivesse minimamente certa de como era sua letra.
Mas por poder ter sido era como se fosse. O que tornava saber a diferença entre verdade e mentira muito difícil.
Não importava mais.
Estava lá a última pena, e não sabia o que seria depois de perdê-la. Estaria nua, por inteiro. Poderia pôr uma calcinha e um vestido solto, e aí seria completamente ridícula.
Estava resolvido: pintaria penas.
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