sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008

22/02/08

Lá estava deitada, com as pernas ainda doloridas por conta do ato cometido. A solidão era tão grande que só o que podia desejar era estar em um lugar onde pudesse ser invisível, onde pudesse estar invisível, e então fosse. Quando mais tinha sido vista, de todos os lados, era também quando mais desejava não haver sido. Achando ainda que tinha os olhos sobre si, se moveu de leve, ainda quente. Porém, não. Todos já haviam ido embora. Ficou cega, também. Não ouvia nada, por conta. Não se podia mexer. Só havia movimento em seus órgãos, sentia cada momento de célula, pressentia cada átomo. Ao menos era escuro, negro, quase, Preto. Era a morte perto dela. Medo, não, tinha. Pensou no vazio que teria se estivesse só. Deu vontade de ir e vir. Saía fumaça de sua boca, mas não tinha fumado, nem fazia assim frio a ponto. Lembrou daquele garotinho que vê pessoas mortas, e quis ser criança de novo. Colocar a cabeça colada à parede e conversar com marcianos verdes habitantes da cama de baixo. “Eu vou te matar. Vou furar o seu olho com uma colher!”. Sim, teria sido uma experiência interessante, mas, não, obrigada. O lago era marrom claro, meio moreno, meio bege. Verde, ao menos, um ou dois, três, talvez. Uma música divertida, um carro sem teto. Licor com gosto de chocolate. E era sempre ela, ali. Todas essas vezes, em todas as coisas das quais se lembrava. Para lembrar, porém, tinha que deixar de ser. Então começava o problema todo de novo. Todo outra vez. Já estava claro, e ela queria que as janelas fossem impermeáveis à luz. Sendo, assim, impermeáveis aos olhos alheios. Até poucos minutos estava tudo tão bem. E de repente uma barulheira dessas, uma fome dessas. O lado de dentro e o lado de fora se juntaram de um jeito que, por um momento, ela e o mundo inteiro foram um só. No prédio da frente tem um velho careca no alto da cabeça, com as laterais bem brancas, magro, sem camisa. Ele fica lá o tempo todo. Ela olha, não sabe se ele está comendo, pintando, tocando uma ou jogando paciência no computador. Todas as opções são tão nojentas. Se ao menos fosse belo, pensa. O velho não pode ser belo?, pensa. Não. Não pode, não. É real, desculpa-se. Um samba, um dia desses. Um chá, na chuva. Se ainda fosse algo menos banal. Mas no fundo sabia estar destinada a ser sempre sendo, o tempo todo. Uma coisa mudara, entretanto. Cada hora era uma hora diferente, e poder separar uma caixinha da outra, para rearrumar, depois. Alcançar nos momentos apropriados. E assim continuar indo adiante, abrindo todas as fendas, cheirando, azedo, doce, seco. Na estante. Uma coleção de potinhos de madeira.

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